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O cálice afastado

Fernando Neubarth narra sobre os ensinamentos de Dr. João Manuel

 Não, não tinha nada contra um cálice de vinho. Até é recomendável, dizem. Flavonóides, essa é a base para a liberalidade. Com propriedades antioxidantes e antiinflamatórias, esses compostos bioativos podem ser encontrados em frutas, legumes, verduras, no chá, no café e no vinho, em especial o tinto. Sem esquecer o chocolate amargo. Estudos relativamente recentes sugerem que o consumo diário de flavonóides com sua ação antioxidante agem combatendo os radicais livres na prevenção de doenças cardiovasculares e até alguns tipos de câncer, retardando o envelhecimento.

Só não o aceitava agora porque teria consultório no início da tarde. Sim, concordava que o peixe elaborado, as guarnições bem escolhidas e o ambiente, a companhia, a ocasião a pedir um brinde pelo menos, tudo se revestia de motivo, quase imposição, para um Merlot, um Cabernet, um Pinot Noir. Mas não podia.

Sentiu-se à semelhança daquele Padre Soeiro, personagem de Eça em “A ilustre casa de Ramires” e, corando, sorriu, repetindo mentalmente: – Com muita água, infelizmente… o gosto pede, mas o reumatismo não consente.

O gosto pede, mas os pacientes não perdoariam. Não, não era gota, aquela artrite com nuances de castigo clerical que desperta incautos praticantes do pecado da gula e outras orgias, era a preocupação em não dar a menor chance à sua clientela para qualquer suposição maliciosa de que fosse um contumaz apreciador. Quem sabe até um alcoólico, já não mais anônimo, ilação que sem dúvida colocaria em risco sua imagem de profissional sério e capaz. O médico é mais ou menos como a mulher de Cesar…

Aprendera isso com o professor João Manuel Cardoso Martins. Inesquecível mestre, erudito e elegante, um pensador da vida e da arte médica que sabia como poucos pontuar em sentenças definitivas todo um universo de conhecimento e reflexão. – Nego – assim se referia dirigindo-se a mim, num gesto carinhoso – Não dê motivo para boatos… Nunca tome bebida alcoólica, mesmo que uma taça, antes de atender. Um simples hálito suspeito pode ser motivo para o paciente fazer juízo de valor, e torná-lo um bebedor desmedido. Seja devoto do noblesse oblige: não basta ser, precisa parecer. Você tem todo direito de ter prazer, mas saiba se adequar às circunstâncias…

Ele era incisivo nisso. Na importância da imagem que o profissional deve manter para conquistar a confiança do paciente. E que ninguém cogite em tentar competir com o paciente no relato de alguma desgraça, como é comum muitas vezes entre casais que insistem em compartilhar uma consulta. O marido queixa-se da dor nas costas, do “asiático” persistente e a mulher se interpõe, iniciando o rosário com algo bem pior, uma “espinhela caída” de muitos anos. Não, nem tente dizer que sua tia sofre o mesmo e que também tens teus eventuais achaques. Não diga nada ou sentirás um desprezo atroz, um olhar de e-eu-com-isso que vai te machucar amargamente. O Dr. João Manuel, o filósofo, já bem dizia: – O paciente quer um médico perfeito… O paciente não quer saber de seus problemas. Aliás, você não os tem. Um pouco de sua aura está em não ter aflições, ser perfeito. Para o paciente. A magia de cada um está no mistério, não no desvendamento.

À noite, com moderação, mesmo com o risco remoto e cada vez mais improvável de um chamado noturno – fato que a moderna violência urbana contribui para deixar como história do passado, relegando ao serviço de empresas que prestam atendimento domiciliar – tomará finalmente sua cota de flavonóides aromáticos. Enquanto acompanha o seu Vasco da Gama ou, com igual satisfação, deixa que o som de um clássico do jazz invada a sala.

Mais uma vez lembrará o professor e lamentará sua ausência, sua partida precoce. Incomoda-lhe uma indagação para a qual ele certamente teria uma resposta. Uma questão crucial, mais presente em datas festivas, dia do médico, festas natalinas, proximidade do réveillon: – Por que essa persistente, embora bem-vinda, prática de presentear com litros e litros de vinhos, licores, destilados? Provocação, tentativa de por à prova o profissional só pelo prazer de destruir sua reputação, caso a armadilha resulte em sucesso? Será uma necessidade de comprovação para o paciente da abstinência de seu médico? Ou é paranóia e a bebida presenteada somente um gesto de gratidão?

Talvez melhor não pensar muito, considera. Nem na brevidade da vida. – A questão central é sempre o porquê – Novamente é o professor João Manuel que ensina: – O porquê implica investigação profunda comparativamente aos outros. Envolve antecedentes e conseqüências, e conhecimento prévio. Por quê? É sempre a mais nobre das perguntas.

– É, vale para a arte médica – diz de si para si, enquanto fixa o olhar através da fluidez sanguínea do vinho que o cristal abriga. E, em tom de discurso: – Obrigado, Professor, por tantas lições compartilhadas. E que os pacientes continuem testando minha resistência. Hei de vencer. Que não desistam das garrafas bem-intencionadas. E esqueçam, por gentileza, os panetones mofados.

 

1º Lugar no Prêmio Literário Dr. João Manuel Cardoso Martins – 2016, promovido pela Sociedade Paranaense de Reumatologia.

Por Fernando Neubarth