#update-nag, .update-nag { display: none !important; }
Home > literatura > Sala de espera

Sala de espera

Igor Interliche descreve as agonias da espera em um consultório

Chego para a consulta, habitualmente sempre antes do horário estabelecido, no mínimo uns vinte minutos antes do horário, sorridente me dirijo à secretária, me apresento e apresento a carteirinha do plano. Depois de uma série de perguntas, a notícia:

-Vai atrasar um pouco!

Olho ao redor, e ao que me parece, faz tempo que ninguém redecora a sala. De um lado uma escultura que imagino ser de inspiração indiana, coisa estranha – parece figura humana, mas com feição meio animalesca, tem membros, mas não tem dedos, é vermelha com detalhes em marrom escuro. Na parede um quadro tosco de paisagem, mistura de cores berrantes, um barco sem ninguém numa praia, com um tom de azul muito forte, um mar esverdeado e a areia num degradé de bege que não combina com as cores que o barco fora pintado, borda verde escura, casco vermelho, e pra completar, um sol de desenho infantil. Com certeza presente de alguém da família do médico que, pelo estilo da pintura, está começando há pouco tempo na carreira, e, na minha opinião, nem deveria prosseguir.

Vasos enormes vazios, que obviamente servem de lixeira para os desavisados que passam por ali todos os dias, e lógico que, por serem enormes e bastante pesados, a faxineira não deve conseguir de jeito nenhum limpar o interior, com sorte, talvez um aspirador potente dê conta de buscar os papéis soltos no fundo.

As poltronas desconfortáveis tornam ainda mais penosa a espera, pela aspereza do tecido também já viram muitos traseiros pela frente, de todos os tamanhos e tipos, e pelo afundamento da espuma, alguns bem acima do peso ideal.

Quando cansei de olhar ao redor, me ative à pilha de revistas numa mesa de canto. Lembrei-me da infância nos consultórios de dentista, onde sempre gostava de folhear as revistas Manchete. Nossa! Nem sei quantos anos faz que pararam de funcionar, mas eram bem legais. Bom, pelo menos para o olhar crítico de uma criança de nove ou dez anos, as imagens do carnaval do Rio de Janeiro eram de outro mundo!

Não, não tinha nenhuma revista Manchete naquele bolo. Não me admiraria se encontrasse, pois achei uma que falava da copa do mundo de 2010, e outras com notícias bem menos interessantes sobre políticas passadas e autoajudas que não eram o que eu procurava.

Li uma ou duas reportagens que poderiam ser mais empolgantes. Ledo engano, eram tão ruins quanto as outras que tinha deixado passar. Resenha de filmes antigos, artigos sem pé nem cabeça. Maldita revista barata! Em tempos de crise ninguém tem dinheiro para uma assinatura decente nesses consultórios.

Lógico que para ajudar a bateria do telefone estava acabando e não ia conseguir passar o tempo lendo algo mais interessante ou escutando uma música que não fosse a instrumental que o autofalante dos anos 70 ressoava, com o chiado da época, inclusive.

Levantei e fui pegar um copo d’água. Bebedouro igual aos de escola, dois andares: o de cima com duas saídas, uma para beber água no próprio bebedouro, a outra para encher copos ou outros recipientes. Aperto o segundo, a água sai num jato tão potente que quase me molha inteiro. Sem jeito, olho para os lados para me assegurar que ninguém viu a lambança. Todos os dois outros pacientes estão entretidos – um na revista mais velha que a minha, a outra no celular, olhando receitas na rede social, que, com certeza, ela nunca vai fazer.

A secretária chamou o homem da revista, esperei ele entrar e então peguei a que ele estava lendo. Talvez houvesse ali alguma coisa mais interessante que a minha. E havia: “Clodovil abre as portas da sua casa em Ubatuba”, quase chorei. Mas fui persistente e vi a reportagem e as fotos até o fim.  Pensei comigo que seria bom estar na casa do Clodovil naquele momento, talvez a espera fosse menos angustiante, e com isso, já se ia mais de uma hora de atraso.

Nunca consegui entender qual a dificuldade de se seguir um horário preestabelecido. Ainda mais esse médico, que não podia usar a desculpa “estava em cirurgia”. Era um clínico geral, oras! E nem era dos melhores ainda, foi o que tinha horário no livrinho do convênio (para o meu desespero!).

Saiu o senhor da revista do Clodovil, entrou a mulher das receitas e eu continuei ali, firme e forte. Resolvi andar um pouco. Talvez seis passos numa sala de espera seja algo que relaxe mais do que ficar sentado, mas na verdade fiquei mais nervoso ainda. Sentei de novo. Queria assobiar, mas achei que a secretária poderia não gostar e atrasar ainda mais minha consulta ou talvez o contrário, me pôr pra dentro mais rápido por não gostar da música. Bom, melhor não testar.

Uma hora e quarenta e seis minutos depois – o alívio. Saiu a senhora das receitas e a secretária me chamou. Entrei no consultório, o médico já nos seus sessenta e poucos me cumprimentou, se apresentou e me pediu para sentar. Quando ia começar a falar o porquê estava ali, o telefone dele tocou.

Educadamente, antes de atender ele me disse:

-Só um minutinho!

Por Igor Thiago Xavier Interliche